Educação Financeira
9 de junho de 2026

Desenrola Brasil 2.0 amplia renegociação e acende alerta sobre reendividamento

 

Nova fase do programa inclui famílias, empresas, estudantes e produtores rurais; educação financeira segue como principal preocupação

O governo federal lançou o Desenrola Brasil 2.0, nova etapa do programa de renegociação de dívidas que amplia o alcance da iniciativa para diferentes setores da economia. A proposta busca reduzir a inadimplência, facilitar o acesso ao crédito e estimular a retomada do consumo, atuando agora em quatro frentes: famílias, empresas, crédito estudantil e produtores rurais.

Apesar da ampliação, especialistas alertam que o programa ainda enfrenta desafios estruturais relacionados à educação financeira da população. Para o PhD em Educação do Comportamento Financeiro e presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (ABEFIN), Reinaldo Domingos, a iniciativa atua principalmente sobre os efeitos do endividamento, sem atacar a origem do problema.

“Estamos, mais uma vez, tratando o efeito do problema, enquanto a causa continua sendo ignorada”, afirma.

Segundo ele, embora o programa tenha potencial para gerar impacto econômico no curto prazo, sua efetividade pode ser limitada caso não exista uma mudança no comportamento financeiro dos consumidores.

O Desenrola Brasil 2.0 foi estruturado para atender diferentes perfis de endividamento. O Desenrola Família é voltado para pessoas físicas negativadas e permite renegociação com juros limitados a cerca de 1,99% ao mês, descontos que podem chegar a 90% e possibilidade de utilização de até 20% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação das dívidas.

Já o Desenrola Empresas é direcionado a micro e pequenas empresas, ampliando acesso ao crédito, prazos maiores e períodos de carência. A expectativa é que a medida contribua para manutenção de empregos e fortalecimento da atividade econômica.

O programa também inclui o Desenrola FIES, voltado à renegociação de dívidas estudantis, com descontos e parcelamentos mais longos, além do Desenrola Rural, destinado a agricultores familiares que enfrentam dificuldades financeiras e precisam renegociar débitos para manter a produção.

Na avaliação de Domingos, apesar dos benefícios, alguns pontos merecem atenção, principalmente em relação aos juros e ao uso do FGTS. Segundo ele, a taxa de 1,99% ao mês pode parecer baixa em um primeiro momento, mas ainda representa um custo elevado para famílias financeiramente fragilizadas.

“A taxa pode parecer acessível, mas no longo prazo continua sendo um custo relevante para quem já está endividado”, explica.

O especialista também demonstra preocupação com a utilização do FGTS para quitar débitos. Para ele, o fundo representa uma das principais reservas financeiras do trabalhador brasileiro e seu uso para pagamento de dívidas pode gerar impactos futuros.

“Ao utilizar esse recurso para quitar dívidas, troca-se uma segurança futura por um alívio imediato, sem garantia de mudança estrutural no comportamento financeiro”, afirma.

Segundo Domingos, a principal fragilidade do programa continua sendo a ausência de medidas mais consistentes voltadas à educação financeira. Ele argumenta que muitas famílias passaram a utilizar o crédito como extensão da renda diante da perda do poder de compra e da alta do custo de vida.

“Hoje vemos reajustes salariais próximos de 5%, enquanto o custo de vida cresce em torno de 20%. Sem orientação financeira, o crédito vira a única saída e também o principal risco”, diz.

O especialista ressalta que programas de renegociação podem funcionar como oportunidade de recomeço, mas alerta que, sem planejamento financeiro, o consumidor corre o risco de voltar rapidamente ao endividamento.

“Sem educação financeira, o ciclo tende a se repetir: renegocia, limpa o nome, volta ao crédito e, em pouco tempo, retorna ao endividamento”, pontua.

Antes de aderir ao programa, Domingos recomenda que o consumidor faça um diagnóstico financeiro detalhado, analisando renda, despesas, prioridades e objetivos de longo prazo. Segundo ele, essa avaliação é essencial para evitar decisões motivadas apenas pela urgência do momento.

“Sem essa análise, a decisão será baseada na urgência, não na consciência”, conclui.

Fonte: Folha PE

VEJA TAMBÉM